Você mal saiu dos limites dessa pequena cidade e eu já tenho um sentimento ruim subindo e descendo em minha traquéia.
É o preço por ser intenso nos sentimentos, sofrer por antecipação. Você sabe como é. Você sempre foi assim. Hoje você estava assim.
Acho que, inclusive, a minha intensidade acentuou-se quando me apaixonei por você e ela nunca foi curada.
É o pedaço de você que levo penosamente dentro de mim. É o que me faz vomitar palavras com um peso incompreensível. É o que faz o preto ser mais preto por ja ter conhecido o vermelho que você irradia (inclusive pelos cabelos, quando te vi pela primeira e derradeira vez).
Sinto falta de te encontrar nos corredores e você me arrastar para sua casa, me dizendo coisas sem sentido que eu não entendia muito bem, mas amava mesmo assim.
Amava as cicatrizes que você não me escondeu. Amava tanto que fiz várias temporárias por pura inércia. Por achar que o sangue escorreria e seria o símbolo da erupção da dor interna, lavando minha virilha como uma lava destrói uma cidadela ou uma floresta.
Amava o papel que você interpretava... ele envolvia – e ouso dizer que ainda envolve- a todos de uma maneira que você não compreendia - mas hoje compreende.
Amava o jeito sem graça que você não conseguia esconder embaixo de sua roupa de super-heroina-rebelde-independente. Amava todas as suas bizarrisses - e isso inclui seus amigos.
Aprendi com você a viver tão intensamente um papel que ele se torna parte de você. Uma parta inseparável do insustentável paradigma interno vivido pelos que sentem mais do que pensam.
Acho que o dia que eu te vi pela primeira vez sabia que meu mundo nunca mais seria o mesmo. Sabia que eu nunca mais iria conseguir viver sem saborear todas as cores que seus lábios carnudos-mas-finos e seus olhos verdes-mas-pretos me ofereciam, num banquete iluminado por canhões de luz e com convidados nus.
Por isso, é engraçado você dizer que não nos vemos com tanta freqüência como éramos antes. É engraçado porque é obvio, é explicito. Foi necessário, era parte crucial da minha cura (ou do meu adoecimento).
Hoje meu mundo é preto-e-branco pois o giz que você usou foi apagado pela necessidade incompreensível de futuro que hoje finjo ter.
Boa viagem. Aproveite tudo que suas cores te providenciar, aproveite todas as portas que seu jeito carismático abrirá, aproveite a distância invejada da mesmice dessa cidadela que aprendi a amar pelos seus sentimentos.
Um comentário:
Ainda é Cedo - Legião Urbana
Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei
Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir
Mas, egoísta que eu sou,
Me esqueci de ajudar
A ela como ela me ajudou
E não quis me separar
Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo.
Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei
Ela falou: - Você tem medo.
Aí eu disse: - Quem tem medo é você.
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém
Ela me disse: - Eu não sei mais o que eu
sinto por você.
Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.
E eu dizia: - Ainda é cedo
cedo, cedo, cedo, cedo.
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