(ou o insustentável vazio)
Ando maquinalmente, como maquinalmente, escuto maquinalmente, trabalho maquinalmente e maquinalmente, traspus o que era intrínseco em mim.
O ode ao sentimento não existe mais. O sentimento foi enclausurado e carrego agora uma grande bagagem de vazio dentro de mim. E nunca a ausência foi tão pesada e horrivelmente sombria e canibal. O vazio devorou minha alma e sugou o resto de vida carnal que havia no resíduo corpóreo. O vazio levou TODA a VONTADE para longe, deixando somente a pré-programação da máquina. e ainda com algumas falhas (que é o que eu utilizei para transpor a ausência de sentimento em palavras).
Não há incentivo em amarrar o cadarço. Talvez se eu me atrapalhar (maquinas se atrapalham?) e vier a estourar a máscara protetora que antigamente chamei de face, talvez assim eu sinta algo, e assim me sentir vivo e pulsante novamente.
Tenho a sensação de que se uma faca transpor meu corpo, independente de sua área, não escorrerá nada do recém aberto buraco. O sangue não existe mais, evaporou e transformou tudo que entra em contato com ele em calor. um calor insuportável. e esse calor exala das roupas, das paredes, do chão, das pessoas, do ar. O ar derrete o resto de vida que o espelho da alma refletia, e então o olho só serve para identificar o que a máquina deve efetuar.
Talvez, porém, a faca transposta no corpo exale uma escuridão que consuma todas as partículas desse universo sem sentido. e espero que, ao derreter todas as miseras e infímas partes do corpo de quem eu anteriormente não suportei eu sinta algo. nem que um profundo nojo, um asco sem tamanho. mas tem que ser sem tamanho, tem que ser um botão que resete e apague todas as configurações maquinais desse corpo, o fazendo voltar ao seu estado original de sofredor.
Pois pelo menos ele sentia algo.
Hoje não sente mais nada.
A solitude virou solidão. virou mais que solidão, virou vazio.
A angústia se transformou em nada. a felicidade virou escuridão.
Não há sentido em viver e nem em questionar nada. não há mais sentido em olhar para os lados ao atravessar uma avenida movimentada e ambiciosa, que só quer te tornar mais maquinal.
Não hpa sentido em levantar da cama de manhã, não há sentido em trabalhar, estudar, namorar.
Não há sentido em sentir.
E mais que isso, não há sentido em escrever.
Nenhum comentário:
Postar um comentário